sábado, 14 de setembro de 2013

E A QUEM MELHOR DESPERTAR, SENÃO ÀS CRIANÇAS?




Os evangelhos de Jesus, que chegaram até nós através dos relatos escrito dos seus discípulos e da tradição apostólica, constituem uma síntese das conquistas espirituais da Humanidade em toda a sua evolução, até o momento histórico do advento do monoteísmo como uma realidade social. Mas a essa síntese temos de acrescentar a visão profética de Jesus, que a partir das conquistas já realizadas abriu novas perspectivas para o futuro humano. Seus ensinos não se limitam a uma repetição do passado. Como em todos os processos históricos, culturais e espirituais, as novas gerações reelaboram a experiência passada, segundo a tese pedagógica de John Dewey. Jesus procedeu essa reelaboração num plano superior, o da consciência iluminada pela visão espiritual.
Se juntarmos à tese de Dewey e de Arnold Toynbee sobre as religiões, o seu papel no processo histórico, vemos que as reelaborações coletivas, sempre dirigidas por um mestre ou líder — no caso um buda, um ,messias, um cristo, palavras que se equivalem — se concretizam em novas mundividências, como a do Budismo em relação ao Bramanismo antigo, a de Confúcio em relação ao Taoísmo, a do Cristianismo em relação ao Judaísmo. Essas mundividências (concepções gerais do mundo e da vida) englobam as conquistas válidas do passado e as visões proféticas do futuro. Ernst Cassirer, em seu ensaio sobre a tragédia da cultura, ou seja, o aspecto trágico do desenvolvimento cultural da Humanidade, lembra que as experiências do passado se concretizam ou se condensam nas obras de uma civilização e podem ser depois despertadas por civilizações futuras, como no caso do Renascimento, onde vemos a cultura grecoromana renascer de suas próprias cinzas, ao impacto da cultura nascente da Europa, nos fins da Idade Média.
A cultura humana — que abrange todas as áreas do Conhecimento e, portanto, também a religiosa — é um imenso esforço coletivo de gerações e épocas, de civilizações e culturas encadeadas e solidárias através do tempo. Sua transmissão se efetua pela educação, mas a educação não é um simples fio transmissor ou objeto passivo, e sim uma espécie de caldeirão em que fervem as ideias, semelhante ao caldeirão medieval de que falou Wilhelm Dilthey em O HOMEM E O MUNDO. E nesse caldeirão que temos de ser inevitavelmente mergulhados, desde que nascemos e até mesmo antes do nascimento, para sermos devidamente cozidos à moda do século. Se formos deixados fora dele não recebemos os ingredientes da cultura e nem os estímulos necessários ao despertar das nossas forças latentes, na linha das
experiências adquiridas. Sem o processo da educação, o ato de amor de Kerchensteiner e Hubert, não despertaremos para a nova orientação que devemos seguir na nova encarnação, na nova experiência existencial. Sem o impacto da educação a cultura do passado não renascerá em nós o seu novo desenvolvimento.
Dessa maneira, negar às crianças o direito à educação cristã, através da evangelização, seria sonegarlhes
o quinhão que lhes cabe na herança cultural. As pesquisas sobre a educação primitiva, básica para a compreensão de toda a problemática educacional, mostram de sobejo que mesmo nas tribos selvagens a
iniciação nos costumes, nos rituais, nas crenças e nas tradições da nação se processam com regularidade, dentro de uma sistemática apropriada. Porque o direito de escolha, de opção, no exercício do livrearbítrio
individual, pressupõe inevitavelmente o direito de aquisição dos elementos necessários ao julgamento. A
educação não é um ato de imposição, de violação de consciência, mas um ato de doação. O educador oferece ao educando os elementos de que ele necessita paraintegrar-se no meio cultural e poder experimentar por si mesmo os valores vigentes, rejeitando-os, aceitando-os ou reformulando-os
mais tarde, quando amadurecer para isso. Já dizia o Eclesiastes: Deus fez tempo para tudo. E o povo repete: Tudo tem o seu tempo.

Herculano Pires- Livro Pedagogia Espirita